Crônica | Com Luiz Taques | 02/09/2019 13h10

Nem com milagre

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Nem com milagre

Não há força capaz de vencer a frouxidão moral

Por Luiz Taques

Você estava comigo, então, deve se lembrar da surpresa dolorosa que aquele lixeiro enfrentou e com a qual ele parou à entrada do bar, ali, naquela rua movimentada, a fim de pedir ajuda, pois, da sua mão direita, saía muito sangue, e, ao mostrar o ferimento, vários clientes viraram a cara, como se aquilo não fosse com eles.

E, sendo sincero, acho que, na verdade, fingiam não estar enxergando que o lixeiro sangrava bastante, a luva encharcada, e o que ele solicitava, em desespero, era apenas um pouco de álcool, para higienizar a ferida e tentar estancar o sangramento, proveniente de um corte profundo, rasgo feito a faca, já que o seu trabalho, a coleta de lixo, não poderia ser interrompida, tampouco, a equipe desfalcada, por causa da lesão que ele sofrera.

Além do mais, o motorista que o aguardava, com o motor do caminhão ligado, estacionado na contramão, precisava acelerar, sair logo dali, para liberar o fluxo de veículos naquela sexta-feira à noite, brecando, assim, o desconforto de outros motoristas os quais, valendo-se do horário de lazer, passeavam com a família, e já começavam a xingá-lo, abaixando, nervosos, os vidros das janelas dos seus carros.

Enfim, o gerente do bar foi ao seu encontro, levando uma embalagem com álcool que, passado na mão, ardia, porém, não amenizava outra dor de que o lixeiro se queixava.

Essa dor o estava corroendo todo, era dor interna, profunda, que não cicatrizaria tão facilmente, a gente desconfiava disso, porque ele não parava de falar sobre essa dor, às vezes, chegava a atropelar as palavras, e, dessa maneira, até para nós, que estávamos numa mesa perto da entrada – aquele seu amigo recém-saído de infarto causado por decepção amorosa ainda não tinha aparecido – como ia dizendo, até para nós, estava difícil compreender com nitidez o desabafo, e, à vista disso, levantamos e chegamos mais próximo e pedimos calma ao lixeiro, no entanto, ele não se acalmava, repetia e apontava pro prédio ao lado, dizendo que um bacana, morador dali, deve ter deixado de propósito uma faca amolada no lixo, faca grande, desprovida de cabo, e ele reclamava que essa insensatez não era atitude de empregada doméstica, era conduta de patrão arrogante, patrão que joga faca com lâmina em perfeito estado de uso no lixo, com a desculpa de que o cabo quebrou, e jogar objetos cortantes no lixo sem proteção adequada, parece que serve mesmo é para zombar da desgraça alheia “Coisa que não se faz”.

À entrada do bar, o lixeiro falava, mostrava uma das mãos, a direita, a que foi atingida pela faca, enquanto o motorista do caminhão de lixo, parado no meio da rua, já de saco cheio com os buzinaços dos carros à sua traseira, começou a buzinar também, chamando pelo lixeiro.

Acontece que o lixeiro não obedecia, teimava em contrariar a ordem recebida, poderia ser punido pela chefia, por insubordinação, ao se mostrar resoluto em permanecer na entrada do bar, obstruindo a passagem, com a sua revolta, que não acabava nunca.

E o dono do bar gesticulava, com impaciência, diante do drama duradouro do lixeiro, mas, de certo modo, o falatório no ambiente atrapalhava a comunicação, a música abafava aquele lamento humilde, só que o lixeiro não se dava por vencido, queria que o bar inteiro ouvisse “Pô, que sacanagem, jogar no lixo uma faca afiada”.

Casais curtindo a vida, desinteressados no protesto do lixeiro, trocavam carícias, riam, provavelmente as risadas se originavam de motivos banais, fato corriqueiro às pessoas que estão apaixonadas.

E, concentrado no seu serviço, o garçom, circulava, apressado.

Logo adiante, instalados numa mesa no meio do salão, um senhor, ostentando promissora barriguinha de chope, comia costelinha de porco com mandioca frita, e a mulher, que lhe fazia companhia, tomava caldo de feijão, e o rapaz com pinta de halterofilista sarado, que estava acompanhado de uma jovem de pele bronzeada, cismou de implicar com aquela conversa na entrada do bar, e você falava alto, devia estar, naquela época, com problema auditivo, daí, que, sequer notava que estava falando desse jeito, num tom elevado, tinha hora que você falava mais alto do que o lixeiro, e o rapaz com pinta de halterofilista sarado e a acompanhante mudaram de mesa, foram para uma mesa mais afastada e confortável, sucedeu que, embora lá, distante, ele virava a cabeça e o encarava, com desprezo e ódio no olhar, no intuito de demonstrar a sua intolerância e de sinalizar que era a sua presença o que realmente o incomodava e, não, a facada na mão que o lixeiro levou de ilustre morador do prédio de classe média daquela localidade da região central.

Somente me recordo que o seu amigo já se encontrava, agora, conosco, no bar – aquele seu chegado romântico, recuperando-se de um fora quase fatal da amada – uma vez que foi ele quem viu um cliente se achegar e, posteriormente, ouviu o tal cliente indicar, ao lixeiro, que, para aquela ferida, havia tratamento, era tratamento alternativo, e, óbvio, que não seria ali, mas com a dona Filhinha, conceituada moradora da alameda Boa Esperança, lá, da longínqua Cidade Branca, na fronteira com a Bolívia.
Ao entrar na roda, e se intrometer na nossa conversa, naquela hora bolorenta, em que o lixeiro, cético e angustiado com o futuro e a saúde, demonstrava temor em procurar um Pronto-Socorro convencional, sempre com escassez de esparadrapo, ou um hospital público, repleto de aparelhos de Raios-x quebrados, aquele prestativo cliente traçou breve perfil da longeva ribeirinha, ressaltando, bem-humorado, que a salutar espiritualidade da dona Filhinha só não conseguiria remover os calos das mãos dele.

Ao lixeiro e a nós, o cliente do bar garantiu que a dona Filhinha era portadora de dons divinos, para cura de espinhela caída, caxumba, dor no estômago, mau-olhado, cobreiro, quebranto, e que, com agulha, linha e pedaço de pano, ela poderia, também, por meio de orações e bênçãos, costurar aquela ferida, bastando que o lixeiro, ao escutar dona Filhinha perguntar “O quê eu coso?”, ele responder “A carne da minha mão que foi aberta pela faca de um sujeito estúpido”, e, aí, na sequência, bastaria apenas ela lhe assegurar “Isso, eu coso e benzo”, e o lixeiro assimilar, com confiança e serenidade, que a solução para o seu caso estaria encaminhada, livre de sequela.

No entanto, se, depois disso, por egoísmo, ele se atrever e pedir a intercessão da dona Filhinha, para que tire os imbecis do seu caminho, dali por diante, com sabedoria, ela, decerto, lhe responderia “Você precisa aprender a conviver com eles, meu filho, afinal, minha fé não é suficiente para operar tamanho milagre”.

Luiz Taques dedica este conto a Margareth Cardoso Fonseca, charmosa e solidária igual à mãe, a saudosa Alice do Zezinho. Jornalista e escritor, Taques nasceu em Corumbá (MS), vive em Londrina (PR) e é autor do romance “Um Rio, Uma Guerra” (Editora Kan, 2016).

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