Mulher e marido buscaram por justiça em toda parte

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Crônica | Luiz Taques | 13/09/2019 14h21

Mãe ninguém engana

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Mãe ninguém engana

Mulher e marido buscaram por justiça em toda parte

           Por Luiz Taques

Se um filho é morto, a sua existência se arrasta, dali por diante.

Assim me sentia, e, mal conseguindo me manter de pé, fui ao general, pedir que investigasse a misteriosa morte do meu primogênito.

Somente ele, detentor da mais alta patente do exército, na época do regime militar, poderia, numa cidade fronteiriça obediente aos quartéis, tomar providência eficaz, com a finalidade de elucidar aquele crime, já que a minha alma e o meu coração de mãe sustentavam “Não, não, não, general, meu filho não se matou, não”.

Ele não deu um tiro na cabeça, difícil de acreditar que atentaria contra a própria vida, toda a vizinhança sabia disso, apesar dessa sua interrogação contrariada no olhar, ao virar-se a todo instante pro meu marido, sentado ao meu lado, numa mudez consentida, porém, não pego de surpresa pelo meu desabafo.

Garanto-lhe, general, que, nem de longe, o meu marido pensa em me interromper.

Em casa, com outras palavras, e imbuída de mais ênfase, eu havia lhe dito, caso precisasse “Viraria cobra, rastejaria pelo chão de delegacia e de fórum, para esclarecer o que aconteceu ao meu menino”.

General, ele tinha apenas vinte e cinco anos, era bem relacionado, distribuía aos amigos seu sorriso largo e sincero, cursava Psicologia – perdoe-me a modéstia, tirava notas altas, de deixar os oito irmãos e professores orgulhosos.

Idealista e criativo, feito todo jovem da sua idade, prontificou-se ao imigrante italiano, projetista de trator que trafegaria sobre as águas dos pântanos, em ser o seu auxiliar, na oficina, então, o que quero dizer ao senhor, ao lhe contar todos esses fatos, é que nenhuma pessoa, em sã consciência e com toda essa garra e disposição de viver e de contribuir com o progresso da sua comunidade, arquitetaria a hipótese absurda de interromper uma trajetória promissora, horizonte novo à sua frente, ainda mais de maneira cruel, na pousada onde residia com a família, conforme matéria divulgada pela polícia e reproduzida por rádios e pelos jornais “Estudante universitário se fuzila em casa”.

Pode alguém fuzilar a si mesmo, general?

Além do mais, as notícias na imprensa causaram diversos transtornos a nós, pois informavam que não podíamos mandar celebrar sequer missa de sétimo dia – os suicidas, seguindo orientação do Vaticano, não teriam o privilégio de alcançar a bênção póstuma católica.

Confiscados pelos agentes em vinte e um de setembro, portanto, na mesma tarde daquele sombrio dia, não sabemos que fim deram ao revólver “Smith & Wesson” calibre 32 e ao relógio “Mido”, que estavam no quarto do meu filho, general, e nunca foram devolvidos à família ou periciados, tampouco, soubemos da realização do exame de balística na arma e qual foi a causa da morte.

Queremos saber: ele morreu em decorrência do certeiro ferimento a bala?

O corpo foi encontrado pelo mano mais novo, estava com o rosto coberto de sangue, estirado entre duas camas de solteiro, e, aí, com base apenas no depoimento de um adolescente de quinze anos, apavorado, sob forte impacto emocional, e, mais grave, desacompanhado de advogado ou de algum adulto, serviu de prova derradeira para direcionar e concluir de forma suspeita e prematura o inquérito policial.

Os seus subalternos devem ter pesquisado nos arquivos do governo e lhe avisado que a Bolívia estava fechada para ele, que era calouro do curso de Sociologia em La Paz, quando ocorreu um golpe militar por lá, seguido de intensa repressão a sindicalistas, religiosos, estudantes e docentes universitários.

O meu filho saiu, sim, às ruas, em defesa da democracia e em campanha pela soltura de presos políticos, e que, por causa dessa sua atuação como líder estudantil, durante dias consecutivos, ele foi capa do “Presencia” e “El Diario”, mas, folheando os dois jornais, o general entenderia que o rapaz que arriscou a integridade física pela liberdade coletiva na sua terra natal “Não seria ingrato de se matar no país que o acolhera com afeto e carinho”.

General, o destino do meu primogênito merecia ser longevo.

Ele sobreviveu a uma violenta crise institucional sem paralelo na história boliviana – acharam que ele tivesse sido atingido e morto durante o bombardeio ao restaurante universitário, junto a centenas de acadêmicos, e eu, desesperada e em luto, na companhia de outro filho, fui a La Paz para buscar o que restava do seu cadáver, após receber o dramático telegrama “Mis pésames. Chíchi falleció”.

Lembro que foram horas de trem e ônibus, eu chorava durante toda a viagem, mas, graças às orações que, no caminho, ia fazendo a Nossa Senhora de Copacabana, Padroeira da Bolívia, ao desembarcar em La Paz, decorridos cinco dias de incansável procura pela cidade, descobri que ele saíra ileso do massacre e encontrava-se em perfeito estado, vivinho da silva.

Retornamos o mais rápido que pudemos e o trouxemos conosco, para que ele tateasse logo o seu rumo por aqui, no aconchego do lar.

Ao abrirmos a porta da casa, o meu marido foi ao seu encontro e o abraçou “Viva o meu Lázaro”, numa referência ao personagem bíblico ressuscitado por Jesus Cristo.

Os olhos de meu marido estavam cheios de lágrimas.

Foi a primeira vez que o vi chorando!

General, não temos mais a quem apelar.

Inúmeras repartições percorremos – tudo em vão.

Penso que neste período agitado que vivemos, do ano de mil novecentos e setenta e quatro, cabe a um militar sereno, igual ao senhor, comandando próspero município de segurança nacional, ajudar esta sofrida mãe a encontrar a paz, ao esclarecer se o filho foi vítima de um crime ou de um acidente, por isso, viemos, meu marido e eu, à sua presença “Depositar a nossa última esperança”. Educado, o general aprumou o corpo, alinhou a farda, estendeu a mão e deu boa tarde, sinalizando que a audiência estava encerrada.

Daí, ele fez um gesto e um oficial nos acompanhou até à escadaria do quartel.

Na saída, ao ver aquele ajudante de ordem do general, de cara fechada, bater continência com severidade à sentinela, eu percebi que a nossa reunião não passara de simples despacho protocolar e que as autoridades “Jamais moveriam uma palha por nós”.

Luiz Taques dedica este conto à memória da senhora Yoya, mãe do seu grande amigo Schabib Hany. Jornalista e escritor, Taques escreveu o livro de contos “O casamento vai acabar com o poeta” (Editora Casa Amarela, 2002) e a novela “MULAS” (Editora Kan, 2019).

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