Crônica | Por Luiz Taques | 07/07/2019 06h49

Cafajeste, não

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Ilustração feita pelo artista plástico Acir Alves. Ilustração feita pelo artista plástico Acir Alves.

Cafajeste, não

Peripécias de um biriteiro pra se equilibrar na corda bamba da vida

Por Luiz Taques

Na Cacimba da Saúde, finurinha de água brotava do morro, limpinha, geladinha.
Antes de correr toda faceira pro rio, a natureza tratava de transformá-la numa imensa piscina, convidativa, revigorante.
Assiduamente, frequentada por Xepé.
Ele chegava logo cedo, colocava garrafa de pinga na boca daquela mina d’água, pra mantê-la fresquinha.
Só, então, banhava-se; tomava um gole de cachaça.
Enfiava a cabeça n’água: saboreava novo trago – sempre, pelo gargalo.
Rotina de Xepé era essa: descer a ladeira; refrescar-se na Cacimba da Saúde, beber pinga. Depois, tateava o chão no itinerário ao aconchego do lar.
A mãe o aguardava com a refeição pronta. A ela, não importava a hora que o seu rebento chegasse da rua.
Bêbado, atrapalhando-se com as pernas, Xepé se deslocava.
No trajeto, pela subida, ele caía; porém, com esforço, levantava-se; aprumava-se, pra seguir o seu destino.
Dormir na sarjeta, não!
Perderia vergonha na cara, a simpatia do bairro...
Além do mais, dormir fora de casa não cabia na sua existência.

O solitário Xepé bebia desde jovem.
Mas, aos trinta e três anos, o vício no álcool o incapacitou pra labuta: era servente de pedreiro.

Da conclusão da quarta-série primária, orgulhava-se – da falta de um amor, ressentia-se.

Como ébrio, Xepé perambulou por postinhos de saúde. Chegou, inclusive, a ser transferido; amargando, distante de Corumbá, algumas internações.
Quando, de lá, escapulia, dos sanatórios da capital, pra onde, a contragosto, havia sido levado, despachava a abstinência. Mandava-a pro beleléu, no boteco que o acolhia.
Nessas ocasiões, pós-manicômio, o primeiro gole, ele tinha o hábito de oferecer a Santo Onofre, o seu santo protetor. A ressaca, da bebedeira que se prolongava durante a viagem pelo trem da Noroeste do Brasil, ele a curaria na Cacimba da Saúde, na própria manhã do seu desembarque.

Sóbrio ou de fogo, Xepé gostava de ouvir rádio.
Não abria mão de se informar pelos noticiários da Difusora e da Clube.
Fazia questão de molhar a garganta ao assegurar que, tudo o que aprendia, aprendia com elas, as emissoras de rádio.
Também embriagado com o aprendizado radiofônico, Xepé, nos bares em que vez ou outra frequentava, envolvia-se nas mais inusitadas apostas.
Se em conversa de bêbado não se deve meter o bedelho, em aposta de bêbado, menos ainda.
– No atentado de onze de setembro, o presidente era George W. Bush. Ge-or-ge Dabliu Bu-sh. Não confunda filho com pai. Preste atenção: o pai era Ge-or-ge Bu-sh.
Tendo soletrado os nomes, Xepé tripudiava:
– O Bush filho vira mais copo do que eu!
Camaradas tarimbados na educação formal, que estivessem bebericando por perto, eram chamados pelo dono do estabelecimento, a arbitrar a disputa.
Superado o impasse, consagrado vencedor, Xepé cobrava na lata:
– Ê, você: pague a dose que me deve.

Aqui, faz-se necessário esclarecer que Xepé não apreciava caipirinha: aguardente batido, misturado a limão macerado, pedaços de gelo e açúcar.

Dito isto, continuemos seguindo Xepé, o corumbaense com insaciável sede de birita.

Outro dia mesmo, ele vinha da Cacimba da Saúde, em passos trôpegos, andando com dificuldade.
Senhora obesa estava sentada em frente à casa dela.
Ao ver Xepé se aproximando, ela foi em direção a ele, de dedo em riste, ameaçadora:
– Se abrir a boca hoje, pra me difamar, eu jogo água quente em você. Duvida? A água está fervendo ali, no fogão.
À investida, Xepé respondeu:
– Eu falo pro seu bem: de tão balofa, a senhora vai explodir. Assim, ó: buuummm!
Na verdade, a senhora obesa não se sentia tão ofendida de ser chamada de gorda, e, sim, pela careta que Xepé fazia e, também, por ele compará-la com Dona Redonda.
De Saramandaia?
É, a Dona Redonda da novela de Dias Gomes que ela, por capricho do marido, não assistiu. Justificativa do marido: a novela passava muito tarde, dez da noite; hora de pescador dormir.
A Xepé, como consolo, a senhora obesa resmungava:
– Se explodiu, o infortúnio foi da Dona Redonda; eu não vi.
Xepé debochava:
– Rá, rá, rá...

Era dia de desfile de Carnaval.
No seu cotidiano de bêbado inveterado, num de seus retornos pra casa, Xepé empacou diante de um velho Opala.
O veículo, estacionado à antiga rua Ocidental, ao lado do bar Maracanã, estava todo adesivado: “Os Cafajestes”.
Xepé ficou cismado.
Não se sabe por que aquilo mexeu com o brio dele.
Que, de porre, não se aguentava em pé.
Sentou-se no para-choque do Opala, e, dali, protestou:
– Num bloco desses, eu nunca sairia. De bebum, podem até me chamar; de cafajeste, não!

Desabafo feito, dignidade restabelecida, Xepé foi embora, cambaleante.
Com a cuca atordoada, decerto por conta desse aborrecimento, ele não reparou que a noite chegara.
Nem imaginou que, ansiosa, a sua mãe ainda o aguardava pra almoçar.
Como de costume, a mesa já estava posta.

Luiz Taques dedica esta crônica ao considerado Marçal do Carmo, 29 anos de idade hoje. Jornalista e escritor, Taques nasceu em Corumbá (MS) e vive em Londrina (PR). É autor do infantojuvenil “A história de Zé Vida de Barraca” (1997); do romance “Um Rio, Uma Guerra” (2016) e da novela “MULAS” (2019).

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