Sete décadas de luta contra a intolerância religiosa
Com 90 anos completados no último sábado (2), a ialorixá Stella de Azevedo dos Santos, ou Mãe Stella de Oxóssi, é uma das mais importantes defensoras da cultura negra no Brasil. Matriarca de uma das mais reconhecidas casas de religiosidade de matriz africana do país, o Terreiro Ilê Axé Opô Afonjá, desempenha importante papel pela igualdade racial e pelo respeito mútuo entre as religiões.
Nascida em 2 de maio de 1925, em Salvador (BA), Stella soube cedo que deveria ser iniciada na religião e que seu caminho seria o de ialorixá. Iniciada aos 14 anos por Mãe Senhora, foi designada sacerdotisa de Oxóssi, o orixá da caça e da natureza. "É a Oxóssi que rogo que me abasteça de sabedoria para entender as fraquezas de muitos de meus filhos e também orientá-los", diz Mãe Stella, que, no último dia 13 de abril, recebeu a visita do ministro da Cultura, Juca Ferreira.
Inspiração ao povo de santo de todo o país, Mãe Stella é também reconhecida internacionalmente, especialmente na África. Cidadã consciente dos seus deveres, sempre defendeu o diálogo e a educação como possibilidades ao combate às diferenças. "O que existe de mais doloroso é a discriminação entre iguais. A sabedoria não tem cor e não pertence a nenhuma raça específica", ressalta.
Lição de respeito e lealdade - De acordo com Mãe Stella, todo e qualquer preconceito só pode ser superado por meio do conhecimento. "A intolerância religiosa parte da discordância de outras religiões e crenças em relação às práticas de matriz africana. O candomblé não é uma crença, é uma prática religiosa", afirma.
Preocupada com os destinos da religião, a sacerdotisa, que tem como uma de suas habilidades a oratória, se utiliza de ferramentas da comunicação para alcançar adeptos do candomblé, mas também para esclarecer e divulgar seus valores filosóficos com o objetivo de combater o extremismo religioso.
Serena e sensata em um país que se intitula laico, a ialorixá afirma que sua luta é, e sempre será, pela equidade de direitos. "Não é nosso interesse forçar alguém a crer em nossas verdades, mas é nossa obrigação fornecer subsídios para que as pessoas ampliem seus conhecimentos, a fim de que seus corações possam ficar cada vez mais livres de preconceitos, mais purificados".
Indagada sobre quantos anos mais espera viver, com sabedoria, a ialorixá responde apenas que, não importando a idade, um bom presente seria ver uma humanidade que se entendesse e se valorizasse. "Não sei se vou alcançar, mas minha felicidade seria uma humanidade em que um respeitasse o outro para ser respeitado, pois quem agride ao próximo não se respeita", destacou.
Condecorações - Autora de oito livros e de inúmeros artigos, Mãe Stella foi a primeira ialorixá a escrever sobre religiosidade e saberes de matriz africana. Na maior parte de suas obras, busca a desmistificação dos orixás. "Todo descendente de africano já tem por osmose essa coisa de orixá. É uma herança que cultuamos, uma força espiritual que cada um tem no sangue, na mente, no pensamento", explica.
Por suas obras, recebeu diversos prêmios literários, sendo considerada "imortal" pela Academia de Letras da Bahia (ALB), em que ocupa a cadeira 33, que tem como patrono o poeta, escritor e abolicionista Castro Alves. Já como defensora da cultura negra, recebeu diversos prêmios e homenagens, como o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal da Bahia (Ufba) e pela Universidade do Estado da Bahia (Uneb), o troféu Esso para escritores negros, a comenda Maria Quitéria, o troféu Clementina de Jesus, a comenda da Ordem do Cavaleiro (pelo Governo do Estado da Bahia) e a Ordem do Mérito Cultural.
A ialorixá está entre os grandes nomes do candomblé, tais como os de Mãe Aninha de Afonjá, Mãe Menininha do Gantois e Mãe Senhora de Oxum Muiwà. Mãe Stella não chegou a ter filhos biológicos, mas como líder espiritual é mãe de mais de mil filhas de santo que repercutem seu legado de luta pela igualdade.
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