Geral | com Luiz Taques | 28/09/2025 09h04

“Sindulfo”, a guerra ocultada

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Como todo bom repórter, um ouvinte de valor precisa ter sorte também.

Constatação que tive ao ler “Vivências de um educador caipira”, de Gilberto Luiz Alves, livro de memórias recém-lançado pela editora CRV, de Curitiba, PR.

Sua bem-sucedida carreira acadêmica (doutorado e pós-doutorado pela Unicamp e professor titular da UFMS), começou por Ponta Porã, no então estado de Mato Grosso, no início dos anos 1970.

Naquela cidade, ao ser contratado, o professor Gilberto Luiz Alves de imediato se instalou no Grande Hotel.

Ali, como hóspede permanente, vivia um oficial reformado do exército brasileiro.

Seu nome: José Baraúna.
Acabaram ficando amigos.

Parece que o militar, natural da Bahia, procurava um ouvinte de confiança para lhe falar sobre “A Guerra do Sindulfo”, da qual, lamentavelmente, ele fora levado a participar.

As longas conversas entre os dois ocorriam no restaurante do Grande Hotel.
Baraúna chegara à cidade no final dos anos 1920.
A companhia Mate Laranjeira mandava na região.
O alto escalão do exército era simpático à empresa – a justiça e a polícia, igualmente.
Somente o jabá ao delegado, por exemplo, era maior que os seus rendimentos.
Para a produção de erva-mate, e exploração sistemática de seus trabalhadores, a companhia não media esforços.
Um posseiro, João Hortt, resolveu enfrentar o poderio da Mate Laranjeira.
Teve a solidariedade de inúmeros ervateiros.
E, ainda, de um paraguaio chamado Sindulfo Garcia.
Os fronteiriços odiavam a Mate Laranjeira.
Consciente disso, Sindulfo Garcia reuniu combatentes brasileiros e paraguaios dispostos a defender os direitos de João Hortt.
A direção da empresa não vacilou.
Fez a falsa denúncia ao general Bertholdo Klinger, comandante do exército na região, de que havia um levante comunista em Ponta Porã.
Bertholdo Klinger colocou sua tropa no encalço de João Hortt e de Sindulfo Garcia e de seus guerreiros.
Os comandados do general, no entanto, levaram um carreirão.
Pelo livro de Gilberto Luiz Alves, conhecemos alguns detalhes daquela derrota: “... os caminhões que transportavam os militares foram atacados pelos insurgentes. Cortados pela frente, o que seguia na dianteira foi incendiado. O estreito trilho dificultava as manobras dos veículos. A retirada por marcha à ré seria muito demorada e exporia a tropa. Diante de condições tão adversas, o exército abandonou os caminhões e recuou a pé.”
Além do desfecho da batalha, que o nosso glorioso exército fez questão de ocultar, as mais de 230 páginas de “Vivências de um educador caipira” têm outras saborosas histórias que Gilberto Luiz Alves resolve, com sua privilegiada memória, nos brindar.
Coube a Ângela Miracema Batista Fernandes, talentosa artista plástica campo-grandense, criar um belo desenho para a capa da interessante obra.
Nascido em Mirassol, Gilberto Luiz Alves cursou faculdade de Pedagogia em São José do Rio Preto (municípios localizados no interior paulista).
O educador Luiz Alves trabalhou, também, em Cuiabá, Corumbá e Campo Grande.
É autor de vários livros acadêmicos – de ficção, lançou, no ano passado, “Era uma vez no Pantanal – uma saga transfronteiriça”.
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Dedica a vida ao ensino e à pesquisa – e não parou de se qualificar, constantemente.
Não faz muito tempo, ao lado de amigos e associados, fundou, na capital de Mato Grosso do Sul, onde fixou residência, um instituto cultural que leva o seu nome.

Luiz Taques é jornalista em Londrina, PR.

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