Geral | Com Arruda Comunicação | 08/05/2026 12h57

Festa de São Benedito celebra 107 anos de fé, resistência e memória

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Há mais de um século, uma promessa atravessa gerações no coração de Campo Grande. Feita por Eva Maria de Jesus, a Tia Eva, mulher negra e fundadora da comunidade quilombola que hoje leva seu nome, a devoção a São Benedito transformou-se em uma das mais importantes manifestações religiosas e culturais de Mato Grosso do Sul. Entre os dias 8 e 17 de maio, a Comunidade Quilombola Tia Eva realiza mais uma edição da tradicional Festa de São Benedito, reunindo fé, memória, esporte, música e pertencimento em uma celebração que resiste há 107 anos.

Realizada na Rua Eva Maria de Jesus, no Jardim Seminário, a festa reúne milhares de pessoas entre moradores, devotos, integrantes do movimento negro, comunidades quilombolas, pesquisadores e visitantes de diversas regiões do estado. Neste ano, a celebração conta com o apoio do Grupo Trabalho e Estudos Zumbi (Grupo TEZ), por meio do projeto Festividades Religiosas: Saberes e Ancestralidade, iniciativa que vem fortalecendo festas tradicionais de comunidades negras e povos tradicionais em Mato Grosso do Sul.

Para Vânia Duarte, descendente de Tia Eva e uma das organizadoras da festa, manter viva a celebração é, antes de tudo, honrar a palavra da matriarca que fundou a comunidade. "Manter viva a realização da Festa de São Benedito é continuar com a promessa de Tia Eva. É honrar o compromisso que ela fez há mais de um século, de dar continuidade a essa devoção".

Segundo Vânia, a origem da festa antecede até mesmo a construção da igreja. Durante a viagem de Tia Eva para a região que hoje corresponde a Mato Grosso do Sul, ela teria alcançado uma graça atribuída a São Benedito. Ao chegar à região do atual bairro Seminário, ergueu uma pequena igreja de sapé e pau a pique e passou a realizar as festividades debaixo das árvores, reunindo famílias, vizinhos e trabalhadores das fazendas próximas.

"Ela viajava pelas fazendas e chácaras buscando prendas e doações para realizar a festa. Sempre foi uma celebração coletiva, marcada pela confraternização e pelo almoço gratuito que buscamos manter até hoje, mesmo com todas as dificuldades", relembra.

A tradição segue viva não apenas na religiosidade, mas também na maneira como a comunidade se organiza coletivamente para realizar a festa. O almoço comunitário gratuito, servido no encerramento, continua sendo um dos símbolos mais fortes desse compromisso deixado por Tia Eva.

"Ela dizia que, quando morresse, os descendentes precisariam continuar realizando a festa dessa forma. Então fazemos isso em respeito à nossa matriarca. É uma confraternização aberta a quem quiser chegar aqui na comunidade", afirma Vânia.

Entre o terço, o samba e o futebol

A Festa de São Benedito também carrega a diversidade cultural da própria comunidade. Durante dez dias, a programação reúne missas, terços, procissões, apresentações culturais, rodas de samba, shows de pagode, sertanejo, bailes, torneios de futebol society, corrida de rua, documentários e atividades comunitárias.

"A nossa vivência é diversa. O futebol sempre esteve muito presente aqui, assim como a música, o samba, o pagode, o baile, a dança. Tudo isso faz parte da nossa identidade e da nossa forma de existir enquanto comunidade quilombola", explica Vânia.

Ela destaca que a festa vai além do religioso. "É um espaço para agregar pessoas, fortalecer a identidade étnico-quilombola e reafirmar o pertencimento. Quem somos, onde estamos e quais são as nossas tradições".

Entre os momentos mais aguardados está o levantamento do mastro de São Benedito, acompanhado da fogueira, além da tradicional procissão que percorre as ruas da comunidade no encerramento da festa.

Patrimônio vivo da cultura negra

A Igreja de São Benedito, construída inicialmente em barro e posteriormente em alvenaria em 1919, tornou-se um dos marcos históricos da presença negra em Campo Grande. Tombada como patrimônio cultural pelo município e pelo Estado desde 1998, a igreja também recebe reconhecimento nacional em 2026.

Para Vânia, o espaço representa muito mais do que um templo religioso. "É cultura, é história, é identidade e pertencimento. Não é só um patrimônio dos descendentes de Tia Eva, é um patrimônio da cidade, do estado e agora do Brasil".

A presidenta do Grupo TEZ, Bartolina Ramalho Catanante, a professora Bartô, destaca que o apoio do projeto Festividades nasce justamente da necessidade de fortalecer tradições que sustentam a memória coletiva da população negra sul-mato-grossense.

"Quando o TEZ apoia uma festa como a de São Benedito, a gente está apoiando muito mais do que um evento religioso. Estamos fortalecendo um patrimônio vivo da cultura negra, uma memória ancestral que atravessa gerações e permanece viva dentro da comunidade."

Segundo Bartô, as festividades religiosas tradicionais carregam saberes que não estão nos livros, mas nos corpos, nas cozinhas, nos cantos e nas relações comunitárias. "Essas festas ensinam sobre solidariedade, espiritualidade, resistência e identidade. O projeto Festividades existe para garantir que essas tradições continuem sendo valorizadas e reconhecidas como parte fundamental da cultura sul-mato-grossense".

Ela também ressalta a importância do apoio cultural para a continuidade da promessa iniciada por Tia Eva. "Manter uma festa centenária exige esforço coletivo, exige recursos e exige reconhecimento. O apoio do projeto é uma forma de contribuir para que essa memória continue viva e para que as novas gerações entendam a importância histórica e cultural desse território".

Ao longo de dez dias, entre o som dos tambores, as orações e o cheiro da comida preparada coletivamente, a Festa de São Benedito reafirma aquilo que Tia Eva iniciou há mais de cem anos: a fé como encontro, a cultura como resistência e a comunidade como continuidade da memória negra em Mato Grosso do Sul.

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