Ilton Silva vai pintar ao vivo no Porto Geral durante o 13º Fasp
Durante a 13ª edição do Festival América do Sul Pantanal, o público vai poder conferir um dos mais conhecidos artistas plásticos sul-mato-grossenses, Ilton Silva, pintando quadros ao vivo no Porto Geral, nos dias 12 e 13 de novembro, às 17 horas. Ilton falou que vai deixar a inspiração o conduzir na escolha dos temas, mas que pretende dar ênfase a elementos da região, como o casario, barcos, canoas de pescador.
Ilton Antunes da Silva, nascido em Ponta Porã, em 1944, foi consagrado em Campo Grande. Ilton nasceu da união de Conceição Freitas da Silva, a notável artista primitivista que esculpia os “bugres”, hoje elevados à condição de ícones culturais de MS, e de Abílio Antunes, funcionário público federal.
Audotidata, Ilton transpira arte e pinta incessantemente. Nos primeiros tempos, oferecia suas telas de casa em casa. Mais tarde, instalando seus ateliês em sucessivos locais em Campo Grande, assistia à popularização desses espaços, que se tornavam referências para comercialização de suas obras e encontros de artistas e amantes das artes plásticas.
O conjunto de sua obra revela o peso da presença cultural guarani em Mato Grosso do Sul. Seus personagens são trabalhadores “guaranizados” da fronteira. As rudes feições de ervateiros e peões produzidos pela miscigenação, seus bigodes finos e alongados, cabelos negros e descuidados, olhos vivos, uma indumentária que inclui o chapéu de grande aba, o poncho, as roupas de cores vivas, e às vezes, o próprio revólver e o “machete”, a companhia do cavalo, os vistosos apetrechos de montaria, o exercício das lidas típicas do campo, as práticas cotidianas, como o churrasco ou a roda de tereré, os bailes, as festas e as bebedeiras, os barracos, as ranchadas, bem como a paisagem onde se sobressai a campina suavemente ondulada, são elementos expressivos de composição que expõem as condições de existência dos trabalhadores fronteiriços, desvelam as atividades econômicas locais e desnudam as relações sociais vigentes.
As obras de Ilton Silva, centradas na vida dos trabalhadores do campo, podem ser classificadas em, pelo menos, quatro conjuntos merecedores de registro. O primeiro foi aquele consagrado na primeira metade da década de 1980, que lhe assegurou premiações nos salões da Fundação de Cultura de Mato Grosso do Sul.
O segundo conjunto compreende a produção realizada em Piraputanga, distrito de Aquidauana, MS. Em 1985, Ilton pintou obcecadamente. As telas produzidas são puro desenho. Os movimentos dos pincéis são soltos. Movido pelos ideais socialistas, então exacerbados, o artista conferiu a essa fase um tom panfletário. Predominam as cores quentes. Os instrumentos de trabalho – a enxada, o machado e a foice – são brandidos por homens e mulheres como armas de combate.
O terceiro conjunto, referente à temática do trabalho, se configurou em uma exposição realizada na Manhatan Gallery em 1989. Cores ralas esmaecidas resultavam de procedimentos em que Ilton, com panos, trapos e pincéis com água, espalhava e limpava as tintas aplicadas nas telas.
O quarto conjunto, talvez o mais brilhante, teve seu resultado exposto na Agência da Caixa Econômica Federal da UFMS em 1993. Afloraram pinturas espatuladas. Manchas de tintas nas telas, com o recurso de estilete ganhavam a forma de peões e de animais, como cavalos e bois.
A série “Cores e Mitos” é sua principal marca artística. Nas telas desta fase são centrais as figuras femininas, pintadas com cores chapadas e contornos filetados. Serenas, os olhos semicerrados dessas mulheres denotam submissão. Seres místicos extraídos do imaginário fronteiriço ou figuras fantásticas disputam um plano secundário ao lado de cocares de folhas que ornamentam as mulheres e de carinhas arredondadas. Na composição desses elementos, a imensa quantidade de informações testemunha um duplo movimento que antropomorfiza as coisas da natureza, por um lado, e coisifica o homem, por outro.
Recentemente, Ilton tem passado por dificuldades financeiras e decidiu se abrir sobre os obstáculos que o artista enfrenta para se manter unicamente da arte. “A vida do artista é muito difícil, não só em Mato Grosso do Sul, mas no Brasil. O artista ou é marchand ou é pintor. Eu não tenho como pintar e comercializar as obras. E para o marchan manter o artista não tem como, porque ele ganha pouco. E quando o artista faz a negociação de sua obra, ele baixa o preço, mas isso não desvaloriza minha obra”.
Para Ilton, não é o preço que faz a obra de arte, pois cada obra é única, “não tem outra igual”. “Considero uma grande riqueza eu ser capaz de pintar. Entrando dinheiro para viver, está bom. Eu recebi muitas homenagens, abrilhantei muitas festas. As pessoas acreditam no artista. E me acho um bom criador. O artista é eleito pelo povo. A sociedade, as pessoas é que fazem o artista. Eu sou fiel às pessoas”, diz.
Ilton considera importante sua participação no Festival América do Sul Pantanal. “Acho interessante participar. Qualquer artista se sentiria muito bem em fazer parte desse Festival. Acho que é um grande Festival e para mim, um artista de 75 anos, essa importância é considerável”.
O impacto da obra de Ilton Silva nos sul-mato-grossenses foi profundo. Ele é o artista mais conhecido do Estado, inclusive entre as pessoas simples. Por seu merecimento, a Câmara Municipal da Capital lhe conferiu o título de Cidadão Campo-Grandense. Em resumo, a inquieta produção artística de Ilton Silva capta e encarna valores expressivos da singularidade cultural em Mato Grosso do Sul. O conjunto de suas pinturas é magnífica síntese da forma de ser, sentir e de fazer dos homens fronteiriços e revela características culturais que, para além do próprio espaço sul-mato-grossense, são compartilhadas por outras regiões da América Platina, em especial pelo Paraguai.
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