Processo montagem, espetáculo tem, Graciliano Ramos como inspiração
Ainda em fase de criação, o trabalho nasce do encontro entre dança, literatura e artes visuais. Idealizado pelo artista sul-mato-grossense Halisson Nunes, o projeto investiga o corpo como um campo de forças, um espaço onde diferentes partes coexistem. A estreia está prevista para este primeiro semestre, em Campo Grande.
O projeto que tem como proposta a criação de um espetáculo — provisoriamente intitulado "Corpo Sobre Penas" — parte das obras dos Retirantes de Portinari, que retratam a escassez, travessia e sobrevivência, do livro "Vidas Secas" do Graciliano Ramos e do Frankenstein nas costuras das partes, metáfora usada para refletir sobre o corpo nos dias de hoje. Segundo Halisson, a proposta não é reproduzir as obras, mas dialogar com suas essências. "Não buscamos traduzir essas referências, mas provocar o corpo a partir delas usando a dança como um campo de experimentação. O corpo tem sido a base para olharmos os excessos contidos nele e investigar essa secura deixando o que é realmente necessário nos movimentos, na dinâmica e nos outros elementos que comporão a obra", explica.
No encontro que ocorreu em Campo Grande, neste primeiro semestre, os artistas Fernando Martins e Halisson Nunes, focaram na construção do trabalho que se deu na pesquisa sobre temas como sobrevivência, retirantes, pessoas à margem, os corpos e na sociedade e nos atravessamentos que se apresentaram durante o processo de criação.
"Foi um momento dedicado a escuta, tempo, convivência, para que não seja apenas um processo construído, mas realmente atravessado", afirma Fernando.
A ideia não é criar uma obra que conta história, mas de como a Secura dos excessos e os Enxertos de informações presentes nos dias atuais podem ser investigados e atuarmos nas tensões para transitar entre a literatura de Vidas Secas e pensar a secura além das camadas externas, nas artes visuais de Portinari que ajudam a pensar as imagens do corpo e a dança como possibilidade de se alcançar novos estados corporais.
A proposta inicial pensada e escrita por Halisson Nunes em 2024, teve atualizações em sua execução para este ano. Após a ida a Piracaia em janeiro de 2025 para uma vivência com Fernando Martins – artista independente de São Paulo – surgiu o convite para somar na Direção Artística e Criação da Trilha Sonora do projeto. De lá pra cá, a comunicação e os encontros foram constantes para não perder a conexão entre os artistas e o trabalho que já estava em processo de discussão sobre os temas.
Com 39 anos de trajetória na dança nacional e internacional, Fernando Martins destaca que o tempo é elemento central no processo. "Algo importante aqui é a presença da 'lentidão' como prática na criação. Em um contexto onde tudo nos empurra para respostas rápidas e produções aceleradas, escolher a lentidão é quase um gesto político. A lentidão cria um espaço de escuta: do corpo, do outro, do que ainda não tem nome. Sem ela, corremos o risco de apenas reproduzir formas já dadas, de montar corpos e discursos sem perceber de onde vêm suas partes".
Intercâmbio artístico: MS e SP - A pesquisa segue em expansão, com a ida de Halisson Nunes para São Paulo. O deslocamento de território impacta diretamente o processo criativo, "Quando o corpo muda de lugar, ele muda a forma de perceber e reagir. Isso faz o trabalho crescer e ganhar novas camadas", destaca Fernando.
As apresentações serão realizadas no Hotel Gaspar, espaço que carrega forte simbolismo de transitoriedade, algo que dialoga com a proposta do espetáculo. Inaugurado em 1956, o local foi um dos principais pontos de chegada e partida na cidade e no Estado, recebendo viajantes pela antiga estação da Ferrovia Noroeste do Brasil.
Conhecido como o "pai dos viajantes", o hotel se tornou palco de encontros, despedidas e histórias de deslocamento. "É um local que dialoga diretamente com a ideia de retirância presente no projeto. Atualmente, o prédio está desativado como hotel, mas aberto para esta ação pontual, mantendo viva sua importância histórica", argumenta Halisson.
Ainda em construção, "Corpo Sobre Penas" aposta no corpo como aliado. O espetáculo será apresentado gratuitamente e conta com parceria da Central Única das Favelas (CUFA), com arrecadação de alimentos e itens de higiene durante as exibições. O projeto "Corpo Fantasma" conta com financiamento do FMIC - Fundo Municipal de Investimentos Culturais, da Fundac - Fundação Municipal de Cultura de Campo Grande, vinculada à Prefeitura da Capital.
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