Cinema | Com Observatório do Cinema | 08/07/2026 11h12

The Ghost in the Shell - Crítica: Anime reinventa a franquia com estreia promissora

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Uma nova Motoko: letal, expressiva e sem paciência

A grande virada do episódio é a própria protagonista. Esta Motoko Kusanagi está longe da ciborgue fria e distante das versões anteriores. Aqui, ela é uma força da natureza, com expressões exageradas e uma personalidade que alterna entre a assassina implacável e a figura debochada em questão de segundos.

Na primeira oportunidade, chama Aramaki de “cara de macaco” e, quando um ministro corrupto ameaça o grupo, simplesmente o faz socar o próprio rosto. É uma cena absurda e engraçada, e é justamente aí que está a genialidade da série.

Essa expressividade não está ali apenas para fazer graça. Cada careta serve para desarmar, quebrar a tensão e, ao mesmo tempo, mostrar quem realmente está no controle.

A Science SARU faz o retrô parecer inédito

Visualmente, o episódio faz uma mágica difícil: parece um anime dos anos 1990, só que produzido hoje, com traço nítido e cores que saltam da tela. A Science SARU aposta no movimento fluido e na expressão em vez do detalhe fotorrealista, e o contraste entre pele e maquinário nos planos do corpo ciborgue é de tirar o fôlego.

Vale um destaque que não é só técnico: a produção assumiu não ter usado nenhuma inteligência artificial generativa (declaração feita pelo diretor Mokochan), num momento em que o setor discute o avanço do uso de IA na animação.

Numa história inteira sobre o que sobra de humano quando quase tudo já virou máquina, a decisão de manter o desenho feito à mão soa quase como manifesto. E os detalhes reforçam esse carinho: do logotipo assinado por Hajime Sorayama à ilustração de encerramento com a mão inconfundível de Yoji Shinkawa, tudo aqui foi pensado por quem ama o material.

O deboche é a isca; o horror é o anzol

Se o tom leve fosse só piada, o anime seria esquecível. O trunfo do episódio é usar a comédia como isca para o soco no estômago. O melhor exemplo é o centro de “aprendizado” que a trama apresenta: crianças obrigadas a recitar uma canção de propaganda, alimentadas só com mingau de arroz, uma delas punida por “não ter comido” depois que outra roubou sua ração. É perturbador, e chega logo depois de uma sequência de caretas cômicas.

Essa chicotada de tom é o coração da coisa. A leveza não alivia o horror; ela o torna melhor, porque a gente nunca sabe pra que lado a próxima cena vai virar. E é nesse mesmo bloco que o episódio explica, de forma simples e elegante, o conceito de ghost: o termo da franquia para aquela fagulha de humanidade, de alma, que resiste mesmo quando o corpo já foi quase todo substituído por tecnologia.

Quando a Major diz a uma dessas crianças para trilhar o próprio caminho, o roteiro entrega em uma frase tudo o que o cyberpunk sempre quis perguntar: o que significa existir num lugar assim?

Veredito

Como episódio de abertura, esta é uma estreia estilosa, confiante e cheia de personalidade, que reinventa o tom da franquia sem trair sua essência. A Motoko debochada é um sopro de ar fresco, a direção de arte é das melhores da temporada e a mistura de comédia e horror funciona melhor do que tinha o direito de funcionar.

Ainda assim, é só o primeiro de dez episódios. Fica de pé a dúvida sobre se o ritmo acelerado e a densidade vão encontrar equilíbrio ao longo da temporada, e se o malabarismo de tons se sustenta numa narrativa mais longa.

O veredito do episódio está fechado, e é positivo. O da temporada, esse continua em aberto. Mas, se depender dessa estreia, terça que vem não chega rápido o bastante.

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