Cinema | Com Observatório do Cinema | 12/08/2026 14h45

Nando Entre Dois Mundos: Filme transforma o vilão de Sintonia em pai desesperado

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Vou ser direto: eu tinha medo desse filme. Sintonia funcionava justamente porque dividia o olhar entre três amigos da mesma quebrada, e transformar um deles em protagonista solitário de um longa parecia o tipo de aposta que costuma dar errado.

Nando Entre Dois Mundos – Um Filme Sintonia chegou nesta quarta-feira à Netflix carregando essa dúvida, e a boa notícia é que ele sabe exatamente o que está fazendo, mesmo quando tropeça no caminho.

A força de concentrar tudo em um só rosto

O que mais me impressionou foi a coragem de estrutura. A série espalhava o peso dramático entre Doni, Rita e Nando ao longo de temporadas inteiras; aqui, Christian Malheiros segura duas horas praticamente sozinho.

Desde Sócrates, em 2018, ele construiu um registro que trabalha na contenção, quase tudo passa pelo rosto, pelo que ele engole em vez do que grita. Nando sempre foi o mais frio do trio, o que calcula enquanto os outros sentem, e o filme se apoia nisso com inteligência.

É um risco. Pendurar um thriller inteiro numa atuação feita de recusa e silêncio poderia ter esvaziado a tensão. Em vez disso, funciona: a pressão vive no que Nando não diz e no que ele já não pode fazer.

Dois mundos que o título leva a sério

O título não é metáfora bonita jogada de enfeite. Nando vive, literalmente, dividido: um exílio na Sérvia que soa como a única saída que uma organização como a dele costuma conceder, e a periferia paulistana que o criou e ainda guarda todo mundo que ele ama.

Enquanto os dois mundos ficam separados, ele sobrevive. O sumiço da filha adolescente, Bruninha, é o estímulo que junta os dois à força, e também o veredito silencioso sobre a vida que ele construiu: dá pra atravessar fronteiras, mas a conta fica onde está a família.

A direção de Johnny Araújo, que ajudou a moldar a linguagem da série lá em KondZilla, mantém a estética de sempre, o olho para o ambiente, o ouvido para o diálogo de quebrada, mas troca a expansão de universo por concentração.

Onde o filme me perdeu um pouco
É aí que mora minha ressalva. Ao apertar tudo em duas horas, o roteiro às vezes se apoia em atalhos de gênero que a série tinha o luxo de evitar. O desaparecimento da filha é um motor eficiente, mas também é um daqueles ganchos que o cinema de ação já usou mil vezes, e em alguns momentos senti a engrenagem aparecendo demais, com a reviravolta chegando no horário certinho.

Sinto falta, também, dos outros núcleos. Bruna Mascarenhas e Jottapê voltam como Rita e Doni, mas em participações rápidas, quase acenos de despedida. Quem se apaixonou pela série pelo funk e pela fé tanto quanto pelo tráfico vai sentir esse recorte.

O filme escolhe uma história só, e essa escolha cobra um preço: ganha foco, perde a polifonia que fazia Sintonia ser Sintonia.

Veredito

Nando Entre Dois Mundos não reinventa o drama criminal brasileiro, e nem tenta. O que ele faz, e faz bem, é dar a um personagem querido o ponto final que a 5ª temporada deixou pela metade.

Malheiros está num nível que sozinho já justificaria assitir, e a decisão de fechar o arco na chave do drama familiar, e não do espetáculo, é corajosa. Perde pontos quando se rende às conveniências de roteiro e quando reduz o resto da turma em pequenas aparições. Mas, como despedida, cumpre a missão com dignidade e pulso firme.

Nota: 8,5/10.

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