Cinema | Com Observatório do Cinema | 15/07/2026 12h37

Lucky - Crítica: Série da Apple TV transforma Anya Taylor-Joy em uma anti-heroína difícil de esquecer

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O peso da família

A relação com John Armstrong, pai da protagonista, dá mais força à história. Vivido por Timothy Olyphant, ele é um golpista carismático que ensinou a filha a observar ambientes, desconfiar de todos e transformar qualquer objeto em uma oportunidade.

Mesmo preso, John permanece na cabeça de Lucky. Seus conselhos ajudam a personagem a escapar de situações extremas, mas também representam o laço que ela tenta romper. Ele é, ao mesmo tempo, a origem de suas habilidades e de muitos de seus problemas.

Olyphant usa bem o charme que sempre marcou sua carreira. O personagem fala com leveza mesmo quando sua presença revela algo mais sombrio. É fácil entender por que Lucky ainda busca sua aprovação, apesar de reconhecer que foi empurrada por ele para uma vida de golpes e violência.

A série acerta ao não transformar essa relação em uma explicação simples. Lucky não é apenas uma vítima do pai. Ela tomou decisões próprias, causou danos e aprendeu a usar sua origem como desculpa quando isso é conveniente.

A produção trabalha bem essa dúvida sobre até onde alguém pode culpar a família pelo adulto que se tornou.

Taylor-Joy também encontra um bom equilíbrio entre fragilidade e frieza. Como em O Gambito da Rainha, ela interpreta uma mulher brilhante que sabe explorar a confiança dos outros. Em Furiosa: Uma Saga Mad Max, a atriz já havia mostrado força em cenas de ação. Aqui, consegue reunir essas duas qualidades.

Lucky muda de postura, voz e comportamento de acordo com a pessoa que precisa enganar. Em alguns momentos, finge vulnerabilidade. Em outros, assume o controle com violência. A facilidade com que atravessa essas identidades mostra uma personagem acostumada a sobreviver sem revelar quem realmente é.

Nem tudo funciona com a mesma precisão. A série exige que o público aceite algumas situações pouco convincentes, principalmente quando Lucky tenta passar despercebida.

Anya Taylor-Joy tem uma presença visual marcante demais para que ninguém repare nela, ainda mais com um cabelo loiro que chama atenção.

Também existem momentos em que a ação parece mais interessada em impacto do que em lógica. As fugas improvisadas, os confrontos e as explosões mantêm o ritmo, mas algumas soluções surgem com facilidade excessiva. A habilidade de Lucky quase sempre aparece no momento exato, reduzindo parte do risco.

Ainda assim, Lucky entende que seu principal objetivo é entreter. A série entrega perseguições, confrontos físicos, armas improvisadas e mudanças rápidas de cenário. Os sete episódios evitam longos períodos de preparação e mantêm a protagonista em movimento constante.

A trilha de abertura de Fiona Apple ajuda a criar a atmosfera. A música tem um tom escuro e elegante, próximo das grandes canções de filmes de espionagem. Ela combina com uma produção que mistura glamour, violência e a sensação de que a protagonista nunca está realmente segura.

O maior mérito de Lucky está em não tentar justificar tudo o que sua heroína faz.

A série não pede que o público considere a personagem uma boa pessoa. Pede apenas que acompanhe uma mulher habilidosa, perigosa e presa entre o desejo de mudar e a facilidade com que volta aos antigos métodos.

Esse conflito sustenta a produção mesmo quando o roteiro exagera ou ignora a lógica. Anya Taylor-Joy transforma Lucky em alguém que pode cometer atos cruéis e, ainda assim, manter o interesse do espectador. Não porque ela seja inocente, mas porque é impossível prever qual será sua próxima escolha.

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