Cinema | Com Observatório do Cinema | 11/09/2026 16h16

Em Coma - Crítica: Netflix aposta tudo em episódios de minutos

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Poucas séries chegam se propondo a mudar a forma como você assiste. Em Coma, a nova produção colombiana da Netflix, é uma dessas: um thriller médico com toque sobrenatural fatiado em 50 episódios que duram de um a cinco minutos cada.

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Antes de falar da história, é impossível não falar da forma, porque é nela que mora a maior aposta, e o maior risco, da série.

A premissa: presa no próprio corpo

Anabel Roldán (Rami Herrera) é uma executiva que, após um ataque violento, cai em um coma irreversível e vai parar numa UTI. O problema é que sua imobilidade não a coloca a salvo: uma rede de tráfico de órgãos quer justamente que ela não acorde, o alvo é o coração dela.

A única pessoa capaz de ajudá-la é Rafael (Jerónimo Cantillo), um enfermeiro com um dom incômodo: ele escuta quem está entre a vida e a morte. É uma sinopse com potencial de sobra, e a metáfora salta aos olhos: a história inteira gira em torno de decisões tomadas por outros sobre um corpo que não pode se defender.

A grande aposta é o formato
Aqui está o que torna Em Coma diferente de tudo no catálogo. A série nasceu concebida como 20 capítulos de dez minutos e acabou reestruturada em 50 episódios ultracurtos, inspirados nos microdramas que bombam no celular, só que adaptados para a tela horizontal.

É uma decisão corajosa: em vez de acompanhar a moda vertical, a Netflix tenta trazer o ritmo viciante do formato para dentro do tradicional do streaming. É a segunda experiência do tipo com produções colombianas, depois de Salcedo, cuero y boogaloo.

Onde a ideia pode brilhar
Confesso que o conceito me animou. Um thriller vive de urgência, e episódios de poucos minutos empurram a trama para frente sem espaço para gordura: cada capítulo precisa resolver ou apertar um pouco mais o cerco em volta de Anabel.

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Quando bem executado, esse recorte faz a estrutura espelhar o próprio enredo, a vida da protagonista vira uma sequência de microdecisões tomadas sem ela, e o espectador sente esse ritmo picotado na própria forma de assistir. No papel, é o tipo de casamento entre forma e conteúdo que separa um experimento esperto de um truque vazio.

Onde pode tropeçar
O risco é igualmente grande. Thriller precisa de tensão acumulada, e um a cinco minutos por episódio deixa pouquíssimo espaço para respiro, silêncio e construção de atmosfera, ferramentas de que o suspense costuma depender. Há o perigo de a série virar uma sucessão de gancho atrás de gancho, viciante como rolar o feed, mas rasa no desenvolvimento dos personagens.

Some a isso um tema pesado como o tráfico de órgãos, que pede fôlego para não soar oportunista, e uma pergunta sobrenatural em aberto (o dom de Rafael é real ou é a forma que ele encontrou para justificar suas ações?). Bem conduzida, essa ambiguidade é um trunfo; mal conduzida, vira desculpa para não fechar as pontas.

Vale a pena?
Pela primeira impressão, Em Coma é o tipo de estreia que eu recomendo experimentar com curiosidade e expectativa calibrada. O conceito é dos mais originais que a Netflix lançou nos últimos tempos, e o formato enxuto faz dela um convite fácil: dá para testar dois ou três episódios em minutos e decidir se a fisgada pegou.

Se a série sustentar a tensão sem sacrificar os personagens, pode ser uma das surpresas do ano; se apostar só no gancho, corre o risco de ser esquecível na mesma velocidade com que é consumida. Minha aposta pende para o lado otimista, mas é uma aposta, e é você quem dá a palavra final assistindo.

Nota de estreia: 3,5/5.

Em Coma está disponível na Netflix.

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