Cinema | Com Observatório do Cinema | 07/08/2026 16h36

Corrida dos Bichos: Distopia carioca tropeça no próprio roteiro

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Corrida dos Bichos é a aposta mais cara e ambiciosa brasileira em anos, e acerta muito mais quando está em movimento do que quando tenta parar para explicar o próprio mundo.

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A distopia dirigida por Fernando Meirelles, ao lado de Rodrigo Pesavento e Ernesto Solis, chega ao Prime Video vendendo escala hollywoodiana com sotaque carioca. Cumpre boa parte da promessa nas sequências de corrida, mas paga o preço de um roteiro dividido entre ideias demais e desenvolvimento de menos.

Do jogo do bicho à arena mortal

Ambientado num Rio de Janeiro décadas após uma catástrofe ambiental que fez o mar subir, arrasar a cidade e depois recuar, o filme imagina uma capital fluminense irreconhecível: bairros de classe média viraram zonas ocupadas e a Mata Atlântica reconquistou o concreto.

Nesse cenário, o antigo jogo do bicho evoluiu para a “Corrida dos Bichos”, um espetáculo sádico em que corredores adotam identidades animais (Leão, Touro, Gato) e disputam provas de parkour por um prêmio milionário. A regra é cruel: para competir, cada corredor precisa oferecer outra pessoa como garantia. Quem perde, entrega ao sistema alguém que ama.

É aqui que a trama encontra seu gancho. Mano (Matheus Abreu), um caçador que vive na zona restrita e detesta o jogo, é obrigado a entrar na competição quando a irmã, Dalva (Thainá Duarte), é usada como colateral. Correndo sob o codinome “Gato”, ele precisa aprender na marra as regras de uma arena que sempre combateu, guiado por Nadine (Isis Valverde), uma jogadora rica de motivações nebulosas.

A alegoria é transparente e deliberadamente brasileira: sobrevivência transformada em entretenimento, a elite apostando na vida dos pobres, a desigualdade como esporte. É a espinha dorsal mais forte do longa.

Onde Corrida dos Bichos brilha
Quando o filme corre, ele voa. As provas são o grande trunfo da direção: cada etapa é desenhada com dinamismo suficiente para jogar o protagonista no pior cenário possível, e nenhuma corrida parece repetir a anterior.

Ora os “bichos” saltam por uma floresta que engoliu a cidade, ora despencam entre arranha-céus em ruínas. O design de produção faz um trabalho notável em construir esse Rio pós-apocalíptico com identidade própria, algo bem mais interessante do que o clichê batido da cidade alagada.

No elenco, Rodrigo Santoro rouba o filme. Seu Abu, ex-corredor que virou gerente do jogo, é o personagem mais rico do longa, um homem viciado em poder e desesperado por pertencer a um lugar que nunca vai aceitá-lo. Santoro carrega um carisma diabólico que dá textura a um vilão que, no papel, seria de uma nota só.

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Abreu, por sua vez, entrega o que a função exige: fisicalidade. É um protagonista funcional, movido mais pelas pernas do que pelas falas, e o filme sabe disso. A participação de Anitta, em sua estreia no cinema como a narradora-apresentadora do espetáculo, funciona como comentário afiado sobre a mídia que embala a barbárie.

Roteiro disperso e mundo pela metade
O calcanhar de Aquiles da Corrida dos Bichos é a estrutura. Com 4 roteiristas, o longa planta sementes de subtramas que simplesmente não florescem. Tudo o que envolve a resistência ao jogo, inicialmente apresentada como peça central, acaba reduzido a mais um obstáculo no caminho do herói.

O romance entre Mano e Nadine soa forçado, apoiado quase inteiramente no apelo físico dos dois atores, sem química que sustente a virada. E o conceito de mundo, apesar do visual caprichado, é raso: o filme nunca explica com convicção como o jogo opera, quem são os verdadeiros donos do poder e por que aquele sistema se sustenta.

Some-se a isso o ar inescapável de já-vi-isso. A comparação com Round 6 é imediata, mas o DNA também carrega Jogos Vorazes, The Running Man e até uma pitada de Mad Max na estética pós-apocalíptica. Nada disso seria problema se o filme encontrasse voz própria, e por vezes encontra, sobretudo na leitura brasileiríssima da desigualdade.

Há, ainda, a sensação de que Corrida dos Bichos talvez pedisse o fôlego de uma série. Boa parte do material fica no ar ao final, claramente pavimentando sequências, e os diretores já admitiram publicamente o desejo de transformar isto numa trilogia. Como longa único, porém, o desfecho deixa quem assiste coçando a cabeça sobre tramas que ficaram penduradas.

O veredito

Corrida dos Bichos é imperfeito, derivativo e narrativamente bagunçado e, mesmo assim, é um dos lançamentos brasileiros mais empolgantes do ano no streaming. Há um prazer real em ver o país abraçar a ficção científica de gênero com essa escala, essa ambição visual e essa disposição de brincar em campo dominado por Hollywood.

Meirelles, em seu primeiro longa em português desde Cidade de Deus, entrega um espetáculo que corre bem à frente de suas próprias falhas de roteiro. Não é a obra-prima que o marketing sugere, mas é entretenimento de alta voltagem que vale a maratona de estreia. Para o cinema brasileiro, é um passo ousado na direção certa.

Nota: 7/10.

Corrida dos Bichos está disponível no Prime Video.

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