Cinema | Com Observatório do Cinema | 16/07/2026 11h31

A Odisseia - Crítica: Nolan devolve um Odisseu que Homero escondeu

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A volta a Ítaca, contada como Homero contou

Faz 20 anos que Odisseu saiu de Ítaca para a guerra, e nesse tempo tudo mudou. A Rainha Penélope, vivida por Anne Hathaway, segura como pode uma casa tomada por pretendentes gananciosos, convencidos de que o rei está morto. O filho, Telêmaco, papel de Tom Holland, cresceu à espera de um pai que nunca conheceu e insiste que ele está vivo.

Longe dali, Odisseu passa os dias numa praia, a memória apagada pelas flores de lótus que a ninfa Calipso, no papel de Charlize Theron, lhe oferece na ilha de Ogígia. É dali que Nolan reconstrói a jornada de volta, provação após provação, até o reencontro.

O roteiro de A Odisseia passa por quase tudo o que se espera do poema (o Cavalo de Troia, a invasão da cidade filmada à noite, o ciclope, as Sereias) sem trair a espinha do texto original. Essa fidelidade é o primeiro grande acerto do filme.

O Odisseu quebrado de Matt Damon

É aqui que a A Odisseia vira algo maior. Matt Damon não interpreta um rei triunfante: interpreta um homem frágil, marcado pela perda e pela dor, que precisa abrir mão do controle para reencontrar a vida que deixou para trás. A astúcia continua ali, mas o que domina a tela é a dúvida.

Nesse filme, a viagem deixa de ser aventura e vira acerto de contas. Odisseu carrega a morte da própria tripulação e de tantos outros mortos em Troia, uma guerra movida por pouco mais do que vaidade.

Cada fuga não celebra a força do herói, corrói a confiança dele. A volta para casa não é o prêmio; é o castigo. E é justamente esse Odisseu do filme (humano e culpado) que o brilho do poema costuma esconder.

Um elenco enorme que não sobra

O que impressiona é como um elenco desse tamanho funciona sem peça solta. Robert Pattinson é Antínoo, o mais ardiloso dos pretendentes, e se joga de cabeça na vilania. Samantha Morton aparece pouco como a feiticeira Circe e mesmo assim deixa a marca mais forte do filme, não como uma vilã simples, mas como uma figura complexa, com razões próprias para o desprezo que sente pelos homens.

Lupita Nyong’o faz com precisão o papel duplo de Helena de Troia e Clitemnestra; Jon Bernthal é um Menelau de peso; John Leguizamo comove como o servo cego e leal Eumeu; e Zendaya, como Atena, funciona como o lembrete constante do preço dessa loucura toda. O único “problema” é querer mais tempo com cada um deles, mas isso é a A Odisseia pedindo ritmo, não falha de escalação.

Troia, o Cavalo e o IMAX: o feito técnico

Do lado da produção, A Odisseia é uma façanha. Foram 91 dias de filmagem em 6 países (Marrocos, Grécia, Itália, Islândia, Escócia e Estados Unidos), muitos deles sob clima hostil e terreno difícil. Na fotografia, mais uma parceria com Hoyte van Hoytema; no design de produção, Ruth DeJong; na montagem, Jennifer Lame, que costura os flashbacks constantes sem perder o fio.

Cenas como o redemoinho no meio do mar e o Cavalo de Troia sendo arrastado pela areia provocam a velha pergunta diante de um filme do Nolan: como diabos eles fizeram isso?

A trilha de Ludwig Göransson faz metade do trabalho de tensão sozinha. E, como tudo foi capturado com câmeras IMAX novas, A Odisseia praticamente implora para ser visto numa tela grande.

Não é um filme perfeito

Não é perfeito, e os dois principais problemas apontam para a mesma direção.

1º problema

O primeiro é a duração. Mas o problema não está nas 2h52, que até parecem pouco para tudo o que o filme tenta contar. A questão é como esse tempo é distribuído.

Nolan dedica muito tempo às grandes batalhas, detalhando cada soldado e cada movimento, mas acelera justamente as pausas mais importantes da jornada, como os encontros com Circe e Calipso e a passagem pelo Hades. São esses momentos que dão peso à história, mas vários deles acabam rápido demais.

Se o filme precisa de um corte de 15 a 20 minutos, ele não deveria vir dessas pausas. O ideal seria reduzir as lutas, que muitas vezes já provaram seu ponto e continuam por mais alguns planos.

2º problema

O segundo é mais delicado, e é o velho ponto cego do Nolan. Ele constrói tensão como poucos, mas raramente confia no drama: quando uma cena precisa doer, ele costuma explicar a dor em vez de deixá-la respirar. Isso aparece em alguns diálogos que soam escritos para o público entender, não para os personagens sentirem.

Odisseu fala em voz alta a culpa que Matt Damon já demonstra, e essa repetição acaba tirando força de algo que a atuação já conseguia transmitir. O paradoxo é cruel: A Odisseia é o filme mais emocional da carreira de Nolan justamente porque fala sobre perda e retorno. Ainda assim, é a própria precisão do diretor que, em alguns momentos, mantém o espectador distante da emoção.

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