Cinema | Com Observatório do Cinema | 25/07/2026 07h00

A Leste do Palácio – Crítica: k-drama da Netflix aposta em espadas contra espíritos

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Quando o luto vira assombração

O ponto de partida já diz muito sobre a ambição do k-drama. Num reino fictício, a linhagem real vem sendo dizimada por mortes que ninguém consegue explicar, e um rei cético, que despreza superstição, se vê obrigado a recorrer justamente ao que não acredita: Gu-cheon, um caçador de espíritos capaz de atravessar a fronteira entre vivos e mortos, e Saeng-gang, uma dama da corte que ouve os que já partiram.

O terror aqui não nasce de sustos, e sim da mágoa acumulada, o han, transformado em maldição. É essa escolha que dá peso ao que, em mãos menos cuidadosas, seria só “caça-fantasmas de espada”.

O que mais me impressionou foi a disciplina da construção. Quase tudo na trama vem em pares, o rei e a rainha-mãe, o mundo dos vivos e seu espelho deformado no além, a energia de um protagonista compensando a do outro.

Esse jogo de equilíbrios poderia soar mecânico, mas funciona como espinha dorsal e mantém o ritmo do k-drama, sem a pressa afobada nem a enrolação que costumam sabotar produções parecidas.

Um elenco à altura da proposta

O retorno de Nam Joo-hyuk aos k-dramas, depois do serviço militar, é o grande acontecimento, e ele responde à altura. Gu-cheon é o oposto exato dos galãs sensíveis que o consagraram: arrogante, técnico, avesso a vínculos.

Ver o ator abraçar essa frieza, com a parte física que o papel exige, é metade do prazer de assistir. Roh Yoon-seo dá à Saeng-gang uma vulnerabilidade que nunca escorrega para a fragilidade, e Cho Seung-woo constrói um rei difícil de decifrar, cujas intenções seguram boa parte da tensão.

No aspecto técnico, é das produções mais caprichadas que a Netflix lançou no ano. O som, em especial, merece um elogio: os espíritos ganham “textura” pela trilha e pelos ruídos muito antes de aparecerem na tela.

Onde o k-drama tropeça

Não é um passeio impecável, e seria desonesto fingir que é. Minha maior ressalva está no roteiro: algumas subtramas se alongam além do necessário, e há momentos em que os diálogos explicam demais o que a cena já havia deixado claro.

Numa história que empilha regras, revelações e folclore próprio, dá para relevar parte disso, mas não some de vez. Some-se a isso a mania de escurecer excessivamente certas cenas, e você tem alguns trechos em que a ambição visual atrapalha a clareza.

E vale o aviso de gênero: quem procura romance leve ou drama realista vai se sentir fora de lugar. Isto é terror de época sem meias medidas.

Vale a pena assistir A Leste do Palácio?

Vale, e com folga. É o tipo de k-drama que começa firme e engrena de vez na metade, quando as reviravoltas se derrubam feito dominós e a maratona vira quase inevitável.

Nem tudo se encaixa com perfeição, mas o conjunto (clima, elenco, folclore e um protagonista fora da zona de conforto) entrega uma das estreias mais envolventes do catálogo coreano da Netflix neste ano.

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