Gastronomia | Da redação | 18/08/2016 14h00

Em forma de picolé, frutas do cerrado despertam o paladar dos consumidores e valorizam os sabores da terra

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Do pasto a industrialização, agricultura familiar mostrou na 49ª ExpoAqui que com o apoio e o trabalho adequado ela pode ser uma excelente fonte de valorização e preservação ambiental das riquezas naturais do cerrado. Neste caso, em especial, os frutos nativos, como: cumbaru, guavira, jatobá, umbu e pequi.

Mais do que proximidade espacial dentro do estande da Agraer (Agência Desenvolvimento Agrário e Extensão Rural), na Exposição, o freezer de picolés da microempresa “Frutos do Mato” e o quiosque do Grupo de Mulheres Produção Sustentável, dividem também o trabalho de caráter sustentável com frutas do cerrado, em especial, pequi e cumbaru.

Tanto que a comercialização firmada entre os dois grupos segue sem intervenção de atravessadores. “Trabalho com minha irmã no resgate das frutas do cerrado. Sorvetes já têm muito por aí, mas picolé é diferente, pois tem muita gente trabalhando com essência e o nosso vem da polpa da fruta. As mulheres do assentamento São Miguel, em Anastácio, são uma de nossas principais fornecedoras”, comenta a proprietária Darli Costa.

Aliança essa que é repetida com outras três comunidades agrícolas: Andalucia, no município de Nioaque, Nova Aliança, em Terenos, e no Monjolinho, outro assentamento de Anastácio. “Eu faço boas práticas com as mulheres de todas essas comunidades. Às vezes, elas têm dificuldade com alguma manipulação ou conservas, então, a gente entra com esse trabalho de acompanhamento”, esclarece Darli.

Durante os cinco dias de exposição, o espaço destinado aos picolés foi um dos mais movimentados. Talvez, porque o público se sentiu atraído não apenas pela ânsia de descobrir os sabores como de ver na prática como a teoria funciona. “Minha mãe sempre contou que saia de casa para catar guavira. Eu conheço a fruta, mas vi aqui e quis apresentar para minha filhinha. A criançada hoje vive tanto no mundo virtual que sair de casa é uma boa descoberta”, conta a mãe e psicóloga, Rita de Oliveira.

Como toda criança, de oito anos, a avaliação é sincera. “É azedinha. Parece um pouco com a uva”. Quem também aproveitou o intervalo de trabalhos foi o diretor-executivo da Agência, José Alexandre Trannin. “Já comprei muito cumbaru torrado para consumir em casa. O gosto é parecido com o amendoim e cai bem como petisco. Vi que tem ali na banquinha da frente. Parei, agora, para experimentar o picolé da mesma fruta”, comenta.

Uma pequena castanha que lembra um pinhão em miniatura, o cumbaru quando torrado ou processado lembra o gosto do amendoim ou paçoca. Da iguaria é possível fazer diversos produtos: pães, biscoitos, bombons e até mesmo a conhecida paçoca.

Do fruto nada se perde. As mulheres do assentamento São Miguel, por exemplo, aprenderam a comercializar a casca para uma empresa que fabrica substrato para orquídeas. “A gente entra nas fazendas para catar o cumbaru. A polpa geralmente é consumida pelo gado que cospe o caroço. É esse caroço duro que a gente quebra e tira a castanha. Mas o que os animais não comem a gente processa na betoneira mesmo. Tira o melaço da polpa”, revela.

A máquina para extração do fruto é uma invenção dos pesquisadores da Cepaer (Centro de Capacitação e Pesquisa) da Agraer. “O caroço do cumbaru é duro demais. Não é um trabalho fácil. A Agraer ajudou muito a gente quando inventou a máquina. Faz tempo que a gente usa ela”, conta a agricultora Marta Alves que compõe o coletivo de sete mulheres que trabalham com o cumbaru.

Além de vender os frutos para as proprietárias do “Frutos do Mato”, o grupo feminino ainda comercializa os produtos em feiras da região e vende os pães dentro do PNAE (Programa Nacional de Alimentação Escolar) para escolas municipais. “O cumbaru não interfere no sabor do pão e as crianças aceitaram bem o produto. Fora que tem um bom valor nutricional”, afirma Marta.

A intenção, agora, é apresentar o produto em outras exposições pelo Estado. “A nossa empresa fica em Campo Grande. O diferencial do nosso trabalho é que não é franquia. É algo da terra mesmo. Sou química de formação e técnica aposentada da UFMS. Apliquei junto com minha irmã o conhecimento que eu acumulei ao longo dos anos. É uma forma de aproximar nossa biodiversidade às pessoas da cidade”, pontua Darli.

“São trabalhos com frutas sazonais. Tem ano que dá bem e outro não. No Monjolinho, por exemplo, tem 600 a 650 pés de pequis. Isso é de uma riqueza. Fora as índias da praça em frente ao Mercadão não veem trabalhos tão significativos. A ação da Agraer de incentivar o trabalho dessas mulheres e evitar os atravessadores é muito bacana”, avalia a microempresária.

Um trabalho que valoriza a agricultura familiar e ajuda a conservar os bens naturais. “Em Goiás, o pequi dá em uma determina época. Termina lá e o nosso começa aqui. É nesse meio tempo que vem muitos atravessadores de São Paulo e Goiás para levar os frutos”, conta.

Entre os meses de agosto e setembro inicia a temporada de colheita de cumbaru. As mulheres de Anastácio já estão se preparando para a caminhada pelas propriedades rurais. “A gente tem autorização para entrar nas fazendas e sítios. Este ano parece que não vai ser tão bom. Tem ano que é bom e outro não. A natureza está nos judiando este ano. Mas agricultura tem dessas coisas”, justifica agricultora.

É por conta de episódios como esse que pesquisas são necessárias. No Cepaer, o pesquisador Edimilson Volpe, por exemplo, mantém desde 2012 um estudo sobre cumbaru. “O objetivo da pesquisa é você produzir frutos todo o ano e não depender dos caprichos da natureza. Sem contar que o cumbaru é uma árvore de multipropósitos. Ela faz a recuperação de solo, proporciona sombra para o os bovinos, alimenta os animais através da polpa do fruto e a sua madeira é de excelente qualidade”, avalia o pesquisador.

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