Dando aquele jeitinho em prol da felicidade 

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Crônica | Luiz Taques | 14/10/2019 14h22

Uma escada mágica

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(Ilustração: Acir Alves) (Ilustração: Acir Alves)

Uma escada mágica

Dando aquele jeitinho em prol da felicidade 

Por Luiz Taques

Betão e Betinho: trajetórias opostas.
Desde pequenos.
Inclusive no tratamento dos apelidos: um, no aumentativo; outro, no diminutivo.
Moram na Cidade Maravilhosa – Betão, podendo tudo, na zona sul, próxima à valorizadíssima orla marítima; Betinho, se virando com o que tem, na região norte, não muito distante dos velhos trilhos da Central do Brasil.
Betão é togado – Betinho tira o sustento dirigindo caminhão-baú.
Não se conhecem, mas eles têm algo em comum (matrimônios desfeitos) e a angústia diária a enfrentar (violência urbana).
Em qualquer deslocamento pelo Rio, consultam no celular o aplicativo OTT: Onde Tem Tiroteio.
O carioca sempre lançando moda.
Sobre Betão, o que se pode dizer é que, na partilha dos bens, não saiu no prejuízo, não.
Dinheiro aplicado no exterior, por exemplo, sequer foi citado ou veio à tona.
Propaganda de cigarro com Gérson, o eterno Canhotinha de Ouro da seleção canarinho, pregava que era preciso levar vantagem em tudo.
Foi o que Betão fez em toda a carreira, na magistratura brasileira.
Do endereço nobre onde vivia, nem precisou arredar o pé.

Como a ex também era magistrada, os meritíssimos (com os altos salários, diárias gordas, palestras, auxílios-moradia, auxílios-creche, 14º e 15º salários de produtividade) haviam mandado projetar outra mansão, além de terem adquirido diversos apartamentos de requintado padrão no litoral, na Urca, no Leblon e em São Conrado.
Com o divórcio, a ex se aconchegaria no novo empreendimento imobiliário e iria desfrutar de arquitetura muito mais sofisticada e chique.
Lógico que frete seria bancado com auxílio-mudança a que os juízes tinham direito.
O amanhã das filhas?
Xô, hipocrisia!
Basta não assumirem compromissos em cartório, que herdarão as polpudas aposentadorias dos pais magistrados, continuarão a andar de elevador panorâmico e, na tentativa de escapar de assaltos e das balas perdidas, circularão de carro blindado.
E Betinho?
Ah, com a separação, o magro patrimônio encolheu substancialmente – e a sua alma definhou!
Betinho era apaixonado pela esposa, e, agora, com ele, a morena de corpo escultural, que causava inveja às outras mulheres do pedaço e que fazia os gaviões suspirarem, quando passava requebrando, não queria mais convivência matrimonial.
A distância da ex e dos filhos seria carga muito pesada que Betinho não gostaria de transportar.
Compactuaram, então, que tocariam a vida dividindo o mesmo sobradinho: ela, no piso inferior – Betinho, no superior.
Privacidade?
Em parte, preservada.
Ao capricho repentino da ex de proibi-lo de usufruir do térreo – a escada que levava ao andar de cima ficava no interior da residência, na sala de visita – Betinho teve de improvisar.
Para um sujeito igual a ele (que saiu da pacata e militarizada Ladário e se acostumou com os buzinaços do trânsito e, mais ainda, com os sacolejos das esburacadas vias do Rio) foi obra fácil alicerçar o improviso.
Ali, na calçada, ao ar-livre, Betinho ergueu outra escada.
Percorre treze degraus e, pronto, já está na solidão do lar, no puxadinho na cobertura.
Quis o destino que os degraus passassem em frente à janela da ex.
Lisonjeado com isso, ele não se deu por vencido: tentou reconquistar a amada.
Investiu na lábia: a todo o momento, ao subir a escada, parava na altura da janela da ex, e extravasava o lado lírico – singularidade charmosa, aliás, que a dona desconhecia.
À ex, Betinho declamou todos os poemas de “Bugre rima com estrelas”, livro de Edson Moraes, o conterrâneo fronteiriço, saudado com entusiasmo pela crítica.
Sábado passado mesmo, pesquisando na internet, achou estas estrofes do talentoso poeta Moraes “Sangram meu coração/ minhas mãos/ o peito/ meus pés e até o caminho que piso./ Mas eu prossigo/ porque tenho o oxigênio da esperança/ que recebi em dom divino”.
Ela abriu a janela, escutou com atenção e sorriu.
O ex ficou decepcionado.
Ela não cedeu; não o convidou a entrar: apenas lhe sorriu.

Quando a mulher cruza a porta das decisões e opta pela separação, ela dificilmente volta atrás!
Homens, em geral, ignoram esse traço do comportamento feminino.

Devido à ruptura conjugal, como ficaram as crianças?
Bate-boca não houve.
Ele e ela combinaram: garantiriam às crias ao menos feijão preto nas refeições.
Não consentiriam que abandonassem a escola.
Com tabelas semelhantes a essas, usando de sensatez na hora de atacar e defender, o casal marcou alguns golaços.

No entanto, sussurros e piadinhas recentes deixaram a morena cabisbaixa: vizinhos, receosos de atrair azar, estariam evitando passar sob “a escada do Betinho” (assim a engenhoca é chamada na redondeza).
Betinho dá de ombros à superstição.
Tampouco se importa com fofocas ou intrigas.
Às queixas da ex, ele retribui com leve toque de classe:
– Nunca uma construção por amor será motivo de vergonha, minha querida!

Luiz Taques dedica esta crônica à considerada Nathália Tereza, trinta e um aninhos no próximo domingo, dia vinte. Jornalista e escritor, Taques publicou a novela infantojuvenil “A história de Zé Vida de Barraca” (1997) e o romance “Um Rio, Uma Guerra” (2016).

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