Crônica | Por Luiz Taques | 02/06/2019 13h33

Escritor aborda o estilo de vida de rua imaginária da sua cidade natal

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PEDRO OBSERVA TUDO
Por Luiz Taques

Na rua de apenas vinte e três casas, com cerca elétrica em todas elas, não é essa paisagem de semiaberto para grã-finos que apoquenta Pedro. O que o atazana, perturba a sua audição aguçada, são as aceleradas desnecessárias da moto 400 cilindradas, pelo comerciante troncudo, e os alarmes que disparam a qualquer hora do dia ou da noite – os da madrugada, então, o tiram do sério.
Pedro é sensível; tem sono leve.
Quando o comerciante troncudo pega firme no acelerador ou quando alarmes tocam, e isso ocorre com frequência, para demonstrar sua irritação, Pedro coça a orelha, balança a cabeça, anda de um lado para o outro.
É o seu jeito de protestar.
Não sossega até o comerciante troncudo desligar a moto ou o guarda da empresa de vigilância aparecer, procurar resolver a situação, antes de ir embora. Às vezes, o guarda demora a se mandar; o guarda aperta a campainha e o morador não atende o interfone para ao menos informar “sim, está tudo bem”.
Com medo de assalto, moradores parecem estar um tanto paranoicos.
A violência assusta: achando que assim estará se defendendo dela, na quitanda virando a esquina, morador da rua foi visto falando em comprar arma.
É a nossa civilização dando latidos incessantes!
Na casa onde moramos Pedro e eu o sol bate forte logo pela manhã. Da janela, a gente enxerga o rio Paraguai, a mata ciliar de um córrego em toda a sua plenitude, o quebra-molas, lá embaixo, aos fundos da casa, na rua paralela onde carros pilotados por motoristas apressados e desatentos pisam fundo nos freios – com as freadas bruscas de fazer cantar pneus, Pedro também não se habituou ainda. Tampouco com os buzinaços.
Em Corumbá, a nossa rua, a rua de uma quadra só, localiza-se num terreno elevado.
Moramos perto uns dos outros e, no entanto, moramos longe uns dos outros: poucos se conhecem, conversam. Corumbá não é mais como a cidade de antigamente, a cidade em que vizinho, na Semana Santa, oferecia sopa paraguaia aos moradores do lado.
Mas Pedro anda abrindo caminho para todos nós. Como diz a gíria do futebol, Pedro é o responsável pelo meio de campo do time da rua: ele é desenvolto, dribla com categoria, não amarela, nem se intimida com cara feia ou falta desleal. A travessura, a sua melhor jogada de craque do pedaço, é correr em direção a esse ou aquele morador, distribuir sorriso, querer abraçar. Pedro é espontâneo – à sua maneira, comunicativo.
Mas, por essa, nem Pedro esperava.
Veja você: a mulher dali morreu. A notícia somente me chegou dias depois. Ir à casa do viúvo, tomar umas cervejas, sepultar por uns instantes o luto dele, seria uma opção para mim. Que não vingou. O tempo passou. Sucedeu que, dia atrás, ao chegar à sua garagem, o viúvo se esqueceu de puxar o freio de mão e o próprio carro quase o atropelou (a garagem fica em uma rampa). Machucou o braço, arrebentou o portão da garagem e por um triz não derrubou o muro da moradora do outro lado da rua. Por acaso, o socorri naquela noite. Disse: vou chamar a ambulância. Ele respondeu que não precisava. Foi o máximo que dialogamos até hoje.
Sentado à varanda, ouvindo samba. É assim que Pedro e eu contemplávamos o morador da frente da nossa casa. Ele me cumprimentava, eu retribuía o cumprimento e a cordialidade parava por aí.
Era professor aposentado. Adoeceu, caiu de cama. Aos sessenta e oito anos de idade, o câncer foi impiedoso: o engoliu em três ou quatro meses. Foi velado das 15h às 18h – na sequência, levado pela funerária. A nota de pesar pelo falecimento me alcançou no momento em que o corpo já trafegava pela BR 262: iria virar cinza em crematório da Capital.
Há, na rua, uma família da cidade de Aquidauana constituída por músicos gospel. A esposa, a todos se mostra gentil; marido e filho, não. Para Pedro, ela acena, revela-se carinhosa. Deve ser mesmo: mulher de cabelos escorridos geralmente são mulheres carinhosas. O marido e o filho, decerto com esse negócio de mexer com religião, de se dirigir com ternura ao semelhante nas suas canções pavimentadas de solidariedade, estejam mais perto de Deus do que ela.
Não se sabe quem passava pela rua naquele dia e que escutou o velhinho ladarense de pernas cambaias anunciar que não entraria mais na igreja do bairro. Motivo: nos sermões, o padre estaria falando muito de política e pouco das ações do Nosso Senhor Jesus Cristo. Como não abdica da sua fé cristã, o velhinho ladarense de pernas cambaias agora precisa pegar ônibus até o centro, para ajoelhar e rezar lá na Igreja Matriz.
O casal de bolivianos gosta de karaokê e de colecionar veículos antigos. Sistemático, o vizinho dos bolivianos acendia velas pretas e velas vermelhas na calçada para acabar com a cantoria. Conseguiu. Acabou-se a cantoria de quarta-feira à noite e, com ela, o fim de uma amizade de mais de duas décadas. Devemos ter personalidade igual a do sistemático vizinho dos bolivianos: com o sistemático, nós nos entendemos.
As pessoas estão ficando tristes e distantes – inclusive em Corumbá.
A Pedro, leio poesia – Raquel Naveira, outro dia: “Perdão e compaixão curam a alma”.
Nas tardes de sábado, a monotonia da rua é quebrada por um sujeito alto e de barba rala. Ele é o namorado de uma morena elegante e apaixonada. O namorado passa as tardes a brincar com o seu carrinho com controle remoto. O namorado não deixa o filho da namorada – um adolescente espichado – colocar a mão no carrinho. Imagine a frustração do adolescente espichado!
Quando o encontra, quem corre de Pedro na rua é o moço autista. O psicólogo que o acompanha não sabe dar uma explicação plausível para esse comportamento arredio.
Inaugurou uma casa de repouso aqui perto. Agora, duas ou três vezes por semana, Pedro e eu vamos lá. Sempre que chegamos, é aquela festa. Idosas e idosos clamam por sua atenção: Pedro senta no colo de uma; beija o rosto enrugado de outro; recebe chamego de todos. Nesse ritmo, as horas correm rápidas. Ao prepararmos para irmos embora, funcionários costumam pedir: – Ô, você poderia trazer o Pedro mais vezes para nos visitar.
Ih, acho que Pedro não percebeu que o terreno baldio, rente ao nosso muro, foi vendido. O projeto de quem o comprou é construir um casarão ali. O comprador aparenta até ser sociável; porém, decidi que não me aproximarei dele para reclamar de barulho ou coisa parecida. Quero distância. Pois bati os olhos nesse camarada e vi que usava peruca. Coisa feia corumbaense usando peruca. Além disso, não confio em homem que usa peruca. E o pior é que me invade uma vontade de rir na lata de um cabra desses.
Fala verdade: não lhe dá acesso de riso quando aquele ministro do STF surge na tevê?
Não? Com aquela peruca penteadinha, um penteado que não despenteia nem com o vendaval reacionário que assola o país?

Ah, lembrei.
Tenho compromisso inadiável ao terminar de escrever esta crônica: ver com Pedro se eu o deixo chateado quando ouço “Pelo rádio”, com Geraldo Espíndola, uns decibéis acima do recomendado pela legislação ambiental.

E, para quem não nos conhece, comigo na foto (abaixo), após uma das nossas caminhadas diárias pela estrada Corumbá-Ladário, para mantermos a forma e eliminarmos a tensão física e mental, Pedro é o que está sem óculos.


Pedro: cachorro com olhos cor de mel

Luiz Taques dedica, com amor, esta crônica a Thalita Maria. O escritor nasceu em Corumbá (MS) e é autor dos livros de contos “O casamento vai acabar com o poeta”; “Essas calçadas ainda vão podar o sonho de mamãe” e “Bebinho, Mamadinho e o velório de Bafo de Alho”.

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