Cinema | Da redação | 06/03/2018 09h59

Filme de Lucrecia Martel provoca espectadores na abertura do 1º Ciclo de Cinema Latino-Americano no MIS

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Tensão e quebra na estrutura narrativa, com utilização dos sons do ambiente e diálogos fragmentados do filme “La Cienaga”, da cineasta argentina Lucrecia Martel, provocaram os espectadores na abertura do 1º Ciclo de Cinema Latino-Americano no Museu da Imagem e do Som (MIS) na noite desta segunda-feira, 5 de março. Pelo roteiro de “La Cienaga”, Lucrecia Martel recebeu o Sundance/NHK Filmaker Award.

O filme, de 2001, retrata a cidade de La Cienaga, conhecida pelas extensões de terra que se alagam com as chuvas repentinas e fortes, formando pântanos que são armadilhas mortais para os animais da região. Perto da cidade fica o povoado de Rey Muerto, em que está localizado o sítio La Mandrágora, onde são cultivados pimentões vermelhos. Para ele vão duas famílias, lideradas por Mecha (Graciela Borges) e Tali (Mercedes Morán). Mecha é uma mulher em torno de 50 anos, que tem 4 filhos e um marido que procura ignorar bebendo cada vez mais. Já Tali é prima de Mecha e também tem 4 filhos, sendo que ama seu marido e sua família. Em meio a um verão infernal, as duas famílias entram em conflito quando a tensão entre elas aumenta.

O curador da mostra e mestrando em Estudos de Linguagens pela UFMS, Miguel Ariza Benavides, explica que escolheu Lucrecia Martel pela sua relevância nos circuitos de festivais especializados em cinema e pela estética regionalista latino-americana que ela propõe. “Lucrecia explora outros elementos, como o som, a imagem e a quebra na estrutura narrativa. Os três filmes do Ciclo que serão exibidos no MIS são protagonizados por mulheres. O filme desta segunda não é fácil, não deixa as respostas claras, o espectador tem que prestar atenção aos questionamentos. O som é o que dá volume, a sensação de espaço, também a partir dos diálogos. Não são diálogos com respostas imediatas, parecem sem sentido. O som e a imagem são como frações que o espectador tem que ligar”.

Após a exibição houve debate com os convidados Márcia Gomes, pesquisadora na área de audiovisual e docente na UFMD e José Carlos Costa, cinéfilo. Para Márcia, a não linearidade da trama é uma fragmentação em que o espectador não se perde, não perde a continuidade. “Os diálogos são extremamente bem feitos, você vai montando, pensando as frases, expressões, eles voltam várias vezes ao mesmo tema. Essa tensão entre dois mundos, da casa grande e das pessoas do povo, há muita falta de comunicação e entendimento entre essas partes. O filme tem essa marca da fatalidade. Todos os acasos estão supostamente entrelaçados. Achei a estética muito instigante e gostaria de saber como ela faz para não se perder o elo, para desenvolver a história de maneira não linear”.

Para o cinéfilo José Carlos Costa, que é fã de Lucrecia Martel, os elementos do filme deixam claro que não é uma obra qualquer. “O diálogo serve para mascarar algo que não quer que se venha à tona, não têm conexão com algo factível que está acontecendo. Há muita coisa que fica suspensa nos diálogos. Ela não se propõe a explicar o filme, mas é a própria forma de se fazer o filme. Todos os objetos estão colados à tela, há uma atração entre a proximidade e o afastamento dos objetos, a focalização é externa. Você acaba entrando num pântano, que é uma metáfora à uma realidade familiar exposta no filme. Lucrecia evita uma performance dramática clássica, ela provoca, desperta o afeto de estar numa narrativa tensa, psicológica, é uma espiral que nos leva a um lugar muito tenso”.

Marinete Pinheiro, coordenadora do MIS, é fã do cinema latino-americano, e informou aos presentes que o Museu pretende realizar mais dois ciclos este ano e está aberta a sugestões para as próximas edições. “Pensamos o próximo Ciclo sobre o cinema da América Central, sobre a questão da imigração, mas ainda estamos estudando. Este ano está sendo muito importante para o cinema latino-americano, o filme chileno ‘Uma Mulher Fantástica’ ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro; o mexicano ‘Viva – A Vida é uma Festa’ ganhou como melhor animação e ‘A Forma da Água’, do diretor mexicano Guillermo del Toro, ganhou como melhor filme. Convidamos a todos para participar das exibições nos próximos dias do Ciclo de Cinema Latino-Americano, aqui no MIS”.

Nesta terça-feira, dia 06 de março, será exibido o filme “La Niña Santa”, e na quarta-feira, 7 de março, será a vez de “La Mujer Sin Cabeza”, ambos de Lucrecia Martel. As sessões começam às 19 horas e a entrada, como sempre, é franca. Após as sessões, a cada dia convidados irão debater com os espectadores acerca dos filmes exibidos. Serão emitidos certificados de participação àqueles que forem nos três dias.

Os espectadores também podem aproveitar para conferir a exposição “Mulheres Protagonistas da Nossa História” com fotografias e textos explicativos homenageando mulheres pioneiras que se destacaram ou ainda se destacam em várias áreas no Estado de Mato Grosso do Sul. Essa exposição já esteve aberta desde 2016 a visitação em diversos espaços de Campo Grande, bem como teve itinerância pelos municípios do interior.

Serviço: O 1º Ciclo de Cinema Latino Americano acontece de 05 a 07 de março no MIS (Museu da Imagem e do Som) localizado no Memorial da Cultura Apolônio de Carvalho, na Avenida Fernando Corrêa da Costa, no 3º andar. Também está aberta ao público a exposição “Mulheres Protagonistas da Nossa História”. As sessões acontecem às 19h com entrada franca.

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